Imortal
É fim de semana e lá estou eu, brincando com meu irmão mais novo de... Bom, eu nem lembro de que, não que a brincadeira fosse chata. É que não tenho a memória tão boa assim, e o que mais me recordo desse dia, era da música que estava tocando. Era música de uma banda antiga, a música era tão antiga que o vocalista já estava morto.
Antiga não. Era um clássico, dizia minha mãe. Eu ficava imaginando o vocalista coberto de terra, dentro de um caixão, sem respirar, sem poder dançar sua própria melodia. Acho que é assim que funciona. Você não conta uma piada para rir, você conta para que outros riem por você, ou de você. E você acaba rindo da reação do outro. E aqui estava eu, dançando aquela música, já que o compositor estava muito ocupado, descansando em paz.
Minha mãe falava para não fazer esse tipo de piada com gente morta. Mas ironicamente, foi naquela voz que encontrei a imortalidade. Aquele cara, cantou nas festas que minha mãe frequentava, quando mais jovem. E estava cantando para gente. Passando de geração a geração.
Isso é a vida depois da morte. Isso é viagem no tempo. Pelo menos eu me sentia vivo ali dançando, todo desengonçado e despreocupado com isso. Quando era criança o ridículo não me preocupava se me fazia rir. Hoje, já acho que não tenho idade para isto. E sei que esse lance de não ter mais idade, é mais ridículo ainda. Ontem eu era melhor. O hoje me preocupa. Será que no amanhã, alguém vai ler alguma coisa do que escrevo?
Clarice Lispector, Charles Bukowski, Chuck Palahniuk... Imortais. Será que um dia consigo a imortalidade, mesmo depois de morto?
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