Entro na lanchonete, e lá está ela me esperando, com as bebidas e a comida que ela escolheu para gente. Ela sempre sabe o que eu estou afim de fazer. Ela sempre sabe o que eu quero.
— Olá, Thiago. Pontual como sempre.
— Oi Alice. Irônica como sempre. Mas é que eu estava escrevendo mais um texto.
— Isso não é desculpa. Sou a única que ler mesmo seus textos.
— Ah também não é assim... há mais algumas pessoas...
— Você pode tentar se enganar, mas a mim, que te conheço perfeitamente, que já li cada palavra do seu blog... a mim, você não engana.
— Você sabe que sou mais do que o blog. Sou também as palavras que não escrevo. O silêncio. As palavras que ficam na minha cabeça.
— As palavras na sua cabeça? (Alice rir)
— Isso mesmo.
— Ai ai, Thiago, cê sabe que é na sua cabeça a minha morada. E aposto o que quiser, que você vai transformar essa nossa conversa numa postagem.
— Por que eu faria isso?
— Porque além de ler seu blog, também leio sua mente. E porque você adora criar essas histórias que não existem.
— Se não existem, por que estamos falando delas?
— Porque eu também não existo, bobo. Sou só uma personagem aqui.
— Não fale isso, Alice. Você é mais do que uma personagem. Assim como meus textos são mais do que histórias inventadas. São os sentimentos que eles transmitem. Isso é real.
— O que existe de sentimento, existe de ilusão. Me diz como você se sente agora?
— Me sinto um idiota falando sozinho...
— Ainda estou aqui, ok? Espero que você me descreva muito bem. Linda, olhos marcantes e claros, cabelos sedosos, lisos, peitos médios, corpo bem distribuído, voz sexy...
— Você sabe que é linda. Mas com olhos pequenos, azuis, brilhantes, com seu cabelo meio liso e meio cacheado nas pontas, adoro seus cachos, seus peitos são pequenos, suas coxas são finas e sua voz é grave demais. Mesmo assim você é linda.
— E sei que a parte que você mais gosta em mim, é a inteligência.
— Sim. Me atrai mais do que sua beleza.
— Inteligência te atraí, né? Deve ser aquele lance dos opostos.
— Engraçadinha.
— Até que você não é tão idiota quanto pensa.
— Concordo. Você está sentindo como se a gente estivesse sendo observados?
— Deve ser porque alguém está lendo nossa conversa.
— Será que alguém ler, Alice?
— Você e essa sua mania de querer interagir com os leitores... Saiba que pelo menos eu leio.
— Como se você tivesse escolha.
— Cansei dessa conversa, agora paga a conta que meu dinheiro é imaginário.
— Ok.
Levanto e pergunto ao garçom:
— Ei, moço, quanto custa ?
Ele responde:
— Pessoas que falam sozinhas não pagam.
Alice cai na gargalha e diz: — Vamos pra casa ver um filme.
Aproveito que é de graça e peço um lanche pra viagem.
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